quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Hemopa: 39 anos doando vidas

No início, um centro de coleta. Hoje, referência nacional e internacional no processamento do sangue e no tratamento de doenças hematológicas. A Fundação Centro de Hemoterapia e Hematologia do Pará (Hemopa) completa 39 anos nesta quarta-feira, dia 2 de agosto. Nessas quase quatro décadas, a instituição priorizou seus investimentos na garantia da qualidade e modernidade de seus serviços, tendo, de um lado, a solidariedade de seus doadores e a necessidade de seus pacientes e, do outro, a utilização de tecnologias avançadas e rigor na triagem e exames do sangue que garantem a segurança nos procedimentos de transfusão.
A presidente da instituição, Ana Suely Saraiva explica que o hemocentro é responsável pela coordenação da Política Estadual de Sangue do Pará e abastece mais de 200 hospitais no estado.  “Nosso trabalho é garantir não somente a segurança do paciente que irá receber uma transfusão, como também a proteção da saúde do doador. Cada servidor tem um comprometimento que vai além de cumprir com o seu papel de servidor público. É uma cultura que já está enraizada e isso ajuda muito com que as nossas metas e resultados sejam alcançados com primor e zelo, com respeito pela vida do outro”, comenta.
Todos os anos, o Hemopa coleta uma média de 100 mil bolsas de sangue. Algumas delas vieram dos braços do porteiro Ismael Monteiro de Souza, de 64 anos. No mês de agosto, juntamente com o aniversário do hemocentro, ele comemora outra data muito importante “Dia 8 completo 45 anos como doador de sangue. Comecei quando tinha 19, por conta das Forças Armadas e não parei mais. É uma coisa que me faz muito bem como ser humano. Nas minhas contas, já foram quase 180 bolsas de sangue coletadas de mim”, comemora com um largo sorriso no rosto de quem já salvou mais de 700 vidas.
Ismael é frequentador assíduo do hemocentro. Além das quatro doações de sangue anuais, ele constantemente está no local participando de campanhas para ajudar na conscientização sobre a importância da doação de sangue, principalmente entre os jovens. “Falo pra eles que tem muitas pessoas precisando da gente. Com uma bolsa de sangue podemos salvar até quatro vidas. E não basta vir uma vez, tem que ser uma atitude constante, que faça parte da vida deles”, ressalta o doador.
Mas o Hemopa não apenas coleta, processa, armazena, irradia e distribui o sangue para a rede hospitalar do estado. A instituição também disponibiliza serviços de atendimento médico para pacientes portadores de doenças hematológicas, por meio da equipe multidisciplinar com médicos, biomédicos, farmacêuticos bioquímicos, odontológicos, fisioterapeutas, fisiatras, enfermeiras, técnicos de enfermagem, assistentes sociais, psicólogos e pedagogos.
Os irmãos Marcelo e Marlon são pacientes da Fundação. Os meninos têm 16 e 13 anos, respectivamente, e são portadores da doença falciforme. “O meu mais velho vivia com uma febre alta e muitas marcas roxas pelo corpo. Com sete anos, ele foi internado, muito mal, com uma anemia muito profunda, e o médico mandou a gente pra cá pro Hemopa pra fazer uma transfusão e aqui descobrimos o que ele realmente tinha. Logo depois, meu o caçula começou a apresentar os mesmos sintomas do irmão”, relata Roseni Pereira, pai dos meninos.
A doença falciforme é hereditária e se caracteriza por alteração dos glóbulos vermelhos do sangue, o que faz com que a membrana das células sanguíneas se rompa mais facilmente, causando uma anemia profunda. A família vive no município do Acará, a mais de 100 Km do Hemopa, onde  precisa vir, em média, a cada dois meses, para que os garotos façam transfusão de sangue. Apesar das dificuldades, Roseni diz que é um homem feliz por saber que os filhos estão recebendo o tratamento adequado. “Se não fossem essas pessoas, que doam o próprio sangue, não sei o que seria da vida deles”.
Para possibilitar que esses pacientes sejam sempre bem atendidos, a Fundação faz o compartilhamento do conhecimento na área do sangue, com a realização de palestras, cursos, oficinas de capacitação, com atenção especial aos profissionais que atentem na atenção básica, primária. “Também oferecemos residência multiprofissional, na área da enfermagem, fisioterapia, biomedicina e farmácia bioquímica; e a residência médica”, ressalta Ana Suely.
Mas, além do ciclo do sangue e do atendimento aos pacientes, o Hemopa também realiza exames pré-transplantes no Laboratório de Imunogenética, responsável pelo apoio laboratorial do Programa de Transplantes do Estado; e possui o único Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário (BSCUP) da Região Norte, com capacidade para armazenar 3,6 mil amostras no seu bioarquivo.
Outro importante serviço é o cadastramento de doadores voluntários de medula óssea, que funciona desde 2002, e de lá pra cá, o hemocentro já enviou quase 120 mil cadastros ao Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), que fica no Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, onde a lista é consultada toda vez que um paciente precisa encontrar um doador não aparentado.
História: Na década de 1970, já existiam bancos de sangue em alguns hospitais paraenses, onde a doação era renumerada. Naquela época, o Governo Federal iniciou a implantação do Programa Nacional do Sangue para estimular a criação de hemocentros estaduais e transformou a doação em voluntária, altruísta e não remunerada, direta ou indiretamente.
“O primeiro banco de sangue público no Brasil foi inaugurado em Pernambuco. O segundo foi, em 2 de agosto de 1978, aqui no estado. Assim nasceu na Fundação Centro Regional de Hemoterapia do Pará (Funepa)”, conta a presidente do Hemopa. “Iniciamos, basicamente, com o ciclo do sangue do doador e com algumas situações, bem embrionárias, voltadas ao atendimento de pacientes portador de hemofilia e doença falciforme”.
Para atrair doadores, já que não havia remuneração, investiu-se em tecnologia e conquistou-se a confiança dos profissionais da saúde e da sociedade. “Por exemplo, não se fazia teste para HIV. Fizemos a aquisição desses kits de forma pioneira e começamos essa testagem mesmo antes de ser obrigatório pela legislação. Além do mais, da década de 70 para a década de 80, passamos a utilizar bolsas plásticas pra coleta do sangue, quando, até então, eram utilizados frascos de vidro a vácuo para coletar esse sangue”, narra Ana Suely.
Com o decorrer dos anos, a Fundação sentiu a necessidade de avançar no estado. Assim, em 1985, o Hemopa novamente fez história, sendo o primeiro hemocentro brasileiro a inaugurar uma unidade fora de uma capital, com o Hemocentro Regional de Castanhal. Além do Hemocentro Coordenador e da Estação de Coleta Castanheira, ambas em Belém, hoje a hemorrede paraense é composta por três Hemocentros Regionais (Castanhal, Santarém e Marabá), cinco Núcleos de Hemoterapia (Abaetetuba, Altamira, Capanema, Redenção e Tucuruí) e 44 Agências Transfusionais instaladas dentro dos próprios hospitais.
Segundo Ana Suely, o atual grande desafio é levar atendimento humanizado para mais próximo da população. “Nossas unidades já fazem esse trabalho e estamos sempre capacitando, treinando e sensibilizando os profissionais nas unidades da hemorrede. Mas queremos ampliar ainda mais nossa descentralização, solidificando as redes de atendimento para nossos pacientes, fazendo com que eles não precisem depender da liberação de TFD para buscar melhor atendimento”.

Além disso, há um investimento que é imensurável e traz um retorno imenso para a sociedade: a conscientização da população para a corresponsabilidade na manutenção do estoque de sangue do Hemopa. Para a presidente, “de forma muito especial e de reconhecimento total quero fazer um agradecimento aos nossos doadores de sangue, que são doadores de vida. Também quero agradecer à sociedade em geral e às instituições pelo apoio e não podemos esquecer o empenho do Governo do Pará. Em muitos estados, a crise financeira foi refletida nos hemocentros, mas aqui nós estamos conseguindo caminhar e avançar. Isso possibilita darmos continuidade à nossa missão que é poder estar atendendo com qualidade e segurança a nossa população”.

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